Trail Running Brasil

Quebrando o gelo - Relato de Fredy Guerra no Indomit Mendoza 2017

Por Fredy Guerra
25/05/2017 - 16:39 - geral

UTIM80 - Indomit Ultra Trail Mendoza 2017 - Cordilheira dos Andes / Argentina.

19 de março de 2017, meia noite, tudo pronto pra largar... Acabo de conferir os equipamentos obrigatórios, primeiros socorros, capacete, lanterna, bastões, tênis, meias e segunda pele reserva em saco estanque, jaqueta impermeável, sacola com equipamentos de troca para áreas de apoio, mochila carregada com hidratação e alimentação. Tudo Ok. Passei pela checagem de prova e me autorizaram a largar.

A temperatura -1°C é agradável, o que incomoda é o frio na barriga.

A proposta era totalizar uma altimetria acumulada de 6.800m para 80 Km percorridos, com terreno misto, liso ou travado, com espinhos e lama, neve fofa e pedras soltas. Condições perfeitas para uma bela aventura!

Despedi do meu amor, Juju Mohallem, e dos amigos Cleber Tavares e Rogério Neri, que teriam largada para os 35 Km e 21 Km durante o dia.

(02h00) Foi dada a largada. Começa uma nova história, um sonho muito real. Já no início os dedos congelavam e os pés molhados doíam após correr os primeiros quilômetros dentro de rios com água transparente de geleiras. Pouca visibilidade. Atenção na marcação e desenvolvimento dificultado, não pela escuridão, mas pelo terreno e inclinação.

Com pouco mais de 15km de corrida, chegou o primeiro posto de controle e bastões na mão, hora de escalar! Neste momento me encontrava entre os 10 primeiros atletas, estava me sentindo bem. O caminho era longo, mas o céu estava limpo, estrelado e eu tentava relaxar um pouco olhando a lua, que estava maravilhosa.

As condições climáticas de até -15°C eram severas. Meu nariz começou a sangrar. Não o sentia mais, assim como meus dedos. Um pouco de falta de ar, mas tudo sob controle.

Passamos pelo posto de apoio Vallecittos no Km 33. Já estava entre os 3 primeiros dos 80k, o ritmo era frenético nesta categoria e também já estávamos juntos com os Top3 dos 100k, que largaram 3 horas antes de nós. Formamos um pelotão de 6 atletas e entramos na parte de maior desnível, com muita neve e lenta ascensão. Que viagem!

E foi em meio às montanhas em um lugar inóspito, com 40 quilômetros de prova e a 3.375m de altitude com neve até os joelhos, que pude ver o sol nascer, me dando as boas vindas em um espetáculo de cores, paisagem que nunca havia visto antes. Era inspirador, emocionante. Não tinha como não me conectar com Deus, com a vida. Não tinha como não me nutrir com a energia limpa dessa natureza selvagem.

E lá no alto de um dos picos nevados eu liderava a prova no geral. Não acreditava que era o primeiro e estava abrindo caminho na neve fofa com meus bastões. Eu estava sozinho, mas me sentindo muito bem acompanhado, seguro e grato pela vida com saúde, pela oportunidade daquela vivência, por sentir tanta alegria no coração naquele momento.

Quando cheguei no posto de controle e de apoio, troquei de roupa, me alimentei e me preparei pra sair, mas a organização não permitiu. Disse que não estava usando calças e que tinha que pagar alguns minutos de penalidade.

Disse a eles: "No regulamento em português estava como sugerido e não obrigatório. Passei pela checagem antes da largada e me deram ok. Estou com todos os obrigatórios."

Mas não adiantou, não me deixaram sair e mesmo não concordando, tive que aceitar a decisão. Paguei meu tempo de penalização e voltei pra prova com mais um atleta argentino. Estávamos em quarto e quinto lugares nos 80k, mas pelo menos não me desclassificaram.

Comecei a passar mal na descida. Aos 50km de prova parei algumas vezes, tinha fraqueza nas pernas e não conseguia me alimentar. Tive paciência e persistência, porque tinha a certeza que aquela indisposição iria passar e eu precisava chegar ao final.

Me concentrei ao máximo, estava em transe. Trabalhava o pensamento de não estar competindo com ninguém, assim ninguém poderia competir comigo e dessa forma poderia reencontrar meu equilíbrio, me sentir vivo novamente, voltar a usar 100% da minha capacidade física e mental e seguir em frente.

Me recuperei dos problemas estomacais e voltei a correr com alegria nas pernas. Naquele momento tive a certeza que meu objetivo iria ser alcançado, que ali era o lugar mais alto do meu pódio, pois eu havia superado as adversidades e seguia para completar o desafio.

Ainda restavam 23km e não podia me desligar do meu planejamento de prova. Sentia muitas dores, estava muito cansado, mas muito determinado. Faltando 12km para a chegada, passei o segundo colocado dos 80k e logo após encontrei o segundo colocado dos 100k. Ele me disse para não parar, porque tinha chances de encontrar o primeiro colocado dos 80 e 100k que estavam logo à frente. Tentei, de verdade, fui até o fim, mas a parada da penalização me custou caro.

Foi com 10h47 de prova que atravessei o pórtico de chegada na segunda colocação geral com a bandeira brasileira em mãos e tamanha emoção que não cabia no peito. Fiquei apenas 3min00seg atrás do primeiro colocado geral dos 80k.

Fui recebido por muitos brasileiros que não conhecia e isso me emocionou bastante, pois todos vibravam. Era uma alegria compartilhada. Não era eu, éramos todos nós, era o orgulho de sermos brasileiros!

Agradeci a Deus, aos amigos, reverenciei todos meus adversários e suas histórias, todo aquele santuário sagrado e hostil.

Sou muito grato aos organizadores e toda equipe de staff que nos proporcionaram esta vivência surreal. Estes caras são os verdadeiros campeões!

Não sou um super atleta, mas me dediquei muito aos treinos e alcancei meus objetivos. Só precisamos acreditar e acreditar.

Aguardei na chegada, meu amor, Juliana Mohallem, que fez uma excelente prova, ficando em 4º lugar geral feminino, nos 21k. Em seguida foram chegando os amigos brasileiros da minha equipe: Rogério Neri, nos 21k e Cleber Tavares, em 4º lugar geral nos 35k.

Fernando Nazário, meu conterrâneo e excelente atleta, foi 3º geral nos 100k, além de vários outros brasileiros que fizeram bonito. Muito feliz pelos excelentes resultados e participação de tantos brasileiros neste evento.

Competir pode nos ensinar, mais do que buscar sermos campeões, a nos doarmos pelos outros. Correr pode nos ensinar a agradecer, para que um todo sempre vença, compartilhando uma energia contagiante, uma satisfação imensa.

Fredy Guerra
Tendência Outdoor Assessoria Esportiva

Mais informações sobre o evento: www.indomit.com.br
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