Trail Running Brasil

El Origen 2016: corrida de montanha levando a parceira nas costas

Por Rafael Campos
04/04/2016 - 15:47 - geral

Já bem acostumado a participar das mais difíceis e inusitadas corridas de aventura e de montanha pelo mundo, vivi uma experiência incrível com o mais recente desafio que me propus a realizar.

Depois de ter participado do El Origen na Patagônia Argentina no ano passado e ter ficado muito satisfeito com a organização e percurso da prova, decidi que retornaria neste ano. Entretanto, uma recente lesão no pé (estou me recuperando de uma fascite plantar) não me permitiria participar como estou acostumado, mas não gostaria de deixar de estar presente.

Foi então que por conta das circunstâncias, decidi transformar a aventura em uma experiência diferente e participar da prova carregando minha filha Manuela, de 1ano e 7 meses, nas costas.

O "El Origen" é uma corrida de montanha em etapas, que acontece ao longo de três dias consecutivos. Existem duas opções de distâncias: 100km e 50km, somadas ao longo das etapas.

A base da competição é em um acampamento em Villa La Angostura, que está a 90km de Bariloche, às margens do belíssimo lago Nahuel Huapi. As largadas e chegadas da prova são a partir desta base única, assim como o camping e estrutura de restaurante e banheiros. Em alguns dias em que a largada ou chegada acontecem em local diferente, um transfer da organização leva os atletas para pontos de largada ou chegada nos arredores.

Uma das características é que os atletas podem optar por ficarem acampados ou buscarem hotéis e pousadas na região. Esta condição facilita muito o acompanhamento por parte de familiares e amigos que desejam assistir.

Participar da prova carregando minha filha nas costas teria um peso muito grande, não só pelos 20kg a mais na mochila (somando o peso dela e dos equipamentos), mas muito maior da responsabilidade de levar um bebê em situação, clima e terreno adverso. Por isso os cuidados, consultas e planejamentos foram minuciosos na intenção de não expô-la a risco desnecessário. A intenção era de proporcionar uma experiência nova, de conquista, aprendizado e relacionamento na família.

No dia anterior à largada aconteceu o briefing em que foram passadas orientações gerais e cuidados da corrida. É quando também retiramos o kit do atleta.

Manuela já se divertia com pratos e copos fornecidos no kit e e brincando de entrar dentro da bolsa emborrachada modelo "dufel" entregue a cada um dos atletas. Oficialmente me inscrevi na categoria dupla mista, onde fomos eu e minha esposa Glaucia, além da Manuela nas costas. A distância seria de 50km, mas que no final acabou somando 65km, um bônus sem pagar nada a mais!!

A 1a etapa teve um percurso de 20km. Largamos do centro de Villa la Angostura e rumamos para o cume de uma montanha onde possui uma estação de esqui, que se vê da própria cidade, o Cerro Bayo.

A madrugada foi muito fria, o dia amanheceu com geada cobrindo a grama. No momento da largada, fazia 6º C mas o sol ajudava a aquecer e acreditávamos que logo iria esquentar.

Os primeiros 9km da prova foram todos de subida, inicialmente estrada de terra, mas a partir do 4º km entramos em uma trilha, passando por lindos bosques, com árvores com troncos gigantescos. Mas conforme íamos subindo na sombra das árvores, a temperatura foi abaixando. Em movimento me mantinha aquecido, mas a pequena Manuela começou a ficar desconfortável.

Tiramos da mochila e a levamos no colo, alternando eu e a mãe. Sua mãozinha estava fria e a água da mamadeira gelada com a temperatura ambiente. No pontos em que batia sol, parávamos para sentir um pouco mais de conforto e muitos atletas que nos passavam nos ofereciam ajuda e queriam ser solidários. Mas não era necessário, fomos mantendo ela aquecida e prosseguimos na trilha.

Manuela resmungava por conta do frio, mas eu sabia que ao atingir o cume teríamos sol constante. Lá haveria também um ponto de hidratação e carros da organização e decidimos então seguir direto para lá.

Ao chegar, já com sol batendo nas costas, a sensação térmica era melhor. Comemoramos a conquista do cume e em família apreciamos aquela vista espetacular das montanhas, do grande lago Nahuel Huapi visto de cima com a cordilheira dos Andes ao fundo. Mas por segurança, decidimos que a Manuela iria parar neste ponto. Ficou com a mãe e seguiu no carro da organização para a chegada, enquanto eu prossegui sozinho no percurso.

Como meu objetivo não era de competir, pude desfrutar demais de cada ponto do percurso. Conversava com muitos dos atletas que eu ia passando, tirava fotos deles ou com eles, em momentos críticos esperava para ajudar os menos experientes... Ao passar por uma crista, tive a certeza de que minha filha não poderia prosseguir nesta etapa: os ventos eram muitos fortes e traziam cinzas vulcânicas dos cumes das montanhas. Ela é mais abrasiva que a areia e machucava as pequenas partes expostas do corpo. Mesmo com óculos escuro, foi necessário proteger os olhos com gorro para evitar a entrada de cinza.

Por fim completei a etapa de 20km, onde minha filha aguardava na linha de chegada alegre pela experiência do dia. A chegada foi em uma praia às margens de um lago, onde comidas e bebidas foram oferecidas ao atletas e curtimos um fim de tarde até que o transfer nos levasse de volta ao acampamento. Ao chegar no acampamento, uma surpresa: uma parrillada argentina de cordeiro. Deliciosa, me acabei de tanto comer.

Na 2ª etapa da prova o percurso nos levaria novamente a mais um cume de montanha, este dia com 22km. Largada e chegada foram na Bahia Manzana, uma bela praia a cerca de 20km do acampamento. Fomos transportado de ônibus, o que para a Manu já era uma programa divertido juntar-se a dezenas de atletas ansioso e equipados para mais uma largada.

Me equipei e preparei para fazer a etapa com minha filha nas costas. Mas minutos antes da largada o médico da prova me aconselhou a não levá-la. Ainda fazia frio, a maior parte do percurso seria por bosques com sombra e havia muitas plantas com espinhos na trilha, o que poderia machucar a criança.

Decidi iniciar com a Manu para sentir a emoção da largada. Fizemos o primeiro quilometro juntos e então retornei para deixá-la com minha esposa. Então saí para fazer o percurso completo, desta vez sozinho. Foi prudente deixá-la mesmo, o percurso inicialmente era por bosques típicos da Patagônia, com árvores muito grandes. Mas próximo ao cume, as trilhas eram mais fechadas e com espinhos. A altimetria acumulada neste dia - 1.300m - foi menor que o dia anterior, que teve 1600m de subida. Faltando 3km para a chegada, havia um trecho de costeira em rio.

A 500m da chegada a Manuela se juntou para cruzarmos o pórtico e cumpri a etapa em pouco menos de 3h30min. O restante do dia foi desfrutando na praia, com churrasco e pizza oferecida pela organização.

No ano passado eu fui o único brasileiro na prova, mas desta vez havia um grupo maior, com atletas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Ao longo dos dias fomos nos conhecendo melhor e uma forte ligação e empatia se estabeleceu rapidamente. Nas refeições trocávamos experiências do que cada um tinha vivido nas etapas da prova. Muitos passaram seu grande momento de perrengue neste dia, com as tempestades de ventos que pegaram na crista da montanha. Mas todos muito felizes e satisfeitos com a superação e a experiência vivida.

Na 3ª e última etapa, o percurso foi de 23km. Neste dia não teve cume de montanha, as trilhas eram bem mais largas e o clima um pouco mais quente, condição perfeita para fazer a etapa toda com a Manuela nas costas. E assim fomos.

Os 20km iniciais foi pelo bosque de Arrayanes, localizada em uma península próxima a Villa La Angostura. Atingíamos alguns pontos mais altos com vista para o lago e montanhas ao fundo. Manuela estava tão confortável que até dormiu. Fizemos duas pequenas pausas para comer e para que ela pudesse circular com as próprias pernas. Os últimos 3km foram em uma costeira, com pedras grandes, mas vista também incrível. A chegada aconteceu no acampamento base da prova, às margens do lago.

Que emoção e satisfação imensa. Cruzar a linha de chegada de uma prova desafiadora sempre é uma sensação muito boa, mas poder fazer isso compartilhando com as pessoas que mais ama, depois de viver junto por momentos de superação, esforço e paciência, não tem preço. Esta foi uma das experiências mais fortes e marcantes que vivi, cujas lembranças ficarão eternas para toda a família.

O El Origen tem uma característica de propiciar um ambiente familiar, que todos que amam as corridas de montanha e contato com a natureza deveriam experimentar. Entre os brasileiros, depois da amizade criada, praticamente fizemos um pacto de retornarmos em 2017. Ainda não sei em qual configuração de equipe, mas é certo que voltarei.

Informações e imagens da prova no site www.tmxteam.com e na pagina do facebook

Mais informações sobre o evento: www.tmxteam.com
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